Mio, o Indomável!

Era um lindo dia de outono, o Sol brilhava alto e o vento derrubava lentamente as folhas das árvores. Tudo parecia normal, mas não estava, um gatinho muito pequenino andava por aquele galpão enorme e barulhento, alguém o jogara lá e ele não fazia ideia de como voltar pra casa.

Alguns humanos estavam discutindo sobre o que fariam com ele.
− Vamos jogá-lo na fornalha, disse um deles. O que será que aquilo significava, pensou. Não parecia ser algo muito bom. Tentava se comunicar, mas seus miados eram inaudíveis. Estava com medo, com frio e, também com fome, porém ninguém parecia se importar...

Foi quando um homem bondoso e alto apareceu e foi o único a notá-lo de verdade. Ele disse:
− Não, não façam nada com ele, vou levá-lo para minha mulher, ela ama gatos e hoje é o seu aniversário. Um gato preto com certeza trará sorte!
Todos riram, no entanto pouparam o pequeno gatinho que continuava sem entender nada, mas feliz por ganhar um afago na cabeça e uma caixinha onde podia se abrigar.

A noite chegou e o homem levou o pequeno gato, era tão pequeno que a caixa de sapatos parecia gigantesca. Quando chegou ao trabalho da mulher a olhou com aquele jeito risonho desejando feliz aniversário, logo entregando-lhe a caixinha.

Ela, curiosa, abriu com cuidado enquanto ao seu lado um outro homem parecia perplexo com o que via...
− Na minha época mandávamos flores, saiu falando com um certo desprezo de quem não entende o amor por um gato.

Já ela, sorridente e feliz com o gatinho, não podia pensar em um presente melhor, nem mais fofinho. Olhou-o por um segundo, ouviu aquele miado baixinho e o nomeou Mio, já que em casa havia uma gatinha chamada Mione que lhe faria companhia.

Os dois não falaram sobre a proibição do síndico em ter mais de um animal por apartamento, nem no fato deles mal terem como sustentar um gato naquele momento, quem dera dois, simplesmente olharam para o pequeno Mio e o levaram para casa, felizes em ter mudado o seu destino.

Mio cresceu e Mione praticamente virou sua mãe. Os dois passavam boa parte do dia correndo pelo apartamento ou em seus longos banhos de língua. Quando não estavam dormindo, estavam admirando as pombinhas pelas grades de segurança das janelas.

Mais tarde todos se mudaram para uma espécie de sítio, onde finalmente a família havia crescido, em humanos e animais. Haviam vários irmãos felinos, dois cães, um coelho e uma linda bebezinha era esperada pelo casal.

Foi aí que Mio começou a ficar um tanto revoltado, na verdade gatos pretos têm uma personalidade forte, são por natureza indomáveis, mas Mio era o que mais demonstrava isso.

Depois que provou o gosto da liberdade não aceitava mais dormir dentro de casa ou na segurança do gatil, queria andar pela rua, no telhado dos vizinhos, pela penumbra da noite. Mesmo sendo um gato criado em casa e castrado, a luz do luar era de longe sua melhor companhia.

Quando ficava preso parecia outro gato, literalmente mudava de personalidade. O gato que antes era tranquilo e amigável ficava extremamente bravo e por vezes atacava os seus donos e os outros animais. Alguns o achavam louco, pois mordia e atacava o próprio rabo, pensando que ali podia ter um inimigo. A própria sombra por vezes o assombrava. Era algo difícil de acreditar, quase como se realmente possuísse duas personalidades completamente distintas.

Mio teve muitas aventuras, certa vez ele explorou a toca do coelho e voltou depois de um tempo todo sujo de lama. Os outros gatos acharam aquilo interessante e fizeram o mesmo. O coelho não achou muita graça, mas não discordou, não adiantaria mesmo. Os gatos eram a maioria.

Certa vez Mio pulou a cerca do vizinho e cortou a barriga, deu um baita susto em todos e ficou várias semanas preso dentro do gatil até se recuperar. Não foi fácil mantê-lo lá por tantos dias.

Com o tempo Mio começou a demorar a voltar para casa, parecia que havia escolhido outro lugar para morar. Certo dia ele chegou depois de uma semana com uma coleira que não era sua. 

Mio era um gato aventureiro, dono de si, não era selvagem e muito menos submisso. Talvez tenha aprendido desde muito cedo que a maioria das pessoas não gosta muito de gatos pretos. De verdade, ele não se importava com a opinião dos outros, mas isso o fez apreciar mais a solidão sob a luz do luar, do que uma cama quente e confortável.

Foi assim que um dia Mio não voltou mais para casa. Ele viveu muitos anos com aquela família, mas decidiu que queria mais. O seu destino talvez fosse em outro lugar, não se sabe até hoje, mas no coração daqueles que o amaram e protegerem vive a certeza de que ele sempre estará por perto, a lhes observar.















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