Siga os Ipês!



Sempre gostei de flores, mas quem não gosta? Lembro que na infância colhia inocentemente flores amarelas que nasciam no pasto para presentear minha professora. Isso é mato! - dizia minha mãe, mas eu insistia em levá-las. Não eram muito cheirosas, mas o volume e a cor vibrante me alegravam.

Lembro dos pés de cirandinha, que mais tarde descobri se chamar albizia (mimosa). Lindos arbustos com flores cor-de-rosa ou vermelhas onde os beija-flores pairavam, eram as suas preferidas. De uma fragrância e textura delicada, mais pareciam um monte de pelinhos formando pompons rechonchudos. 

Sem dúvida a mais cheirosa era a gardênia, também chamada jasmim-do-cabo, que floria lindamente no jardim dos meus avós. A cor branca se destacava de longe e o cheiro era indescritível. Até hoje quando sinto aquele perfume, fecho os olhos e relembro saudosa os momentos felizes que passei com meus avós.

De todas as flores que conheci uma delas me marcou. Entre idas e vindas parece que sempre me deparo com elas em minha vida, chego a pensar que são um sinal de que estou no caminho certo, que mostram por onde devo seguir. É a flor de ipê!

Cresci vendo uma árvore altiva com cachos de flores amarelas que anunciavam a chegada da primavera. Todo ano era um espetáculo que eu contemplava pela varanda da minha casa. Uma árvore velha, alta, incomparável. Dos seus galhos caiam a barba de velho e na sua sombra meus primos e eu brincávamos ao entardecer.

Lembro que um dia meu avô falou que a árvore de ipê estava morrendo, fiquei muito preocupada, porque não imaginava como seria acordar sem o esplendor daquelas flores, das folhas, dos galhos. Decidi então plantar mudas de ipê em toda a estrada que permeava minha casa, mas como demoraram a crescer! Cresci mais rápido que os pés de ipês e antes que eles estivessem prontos pra florescer eu parti para viver minha própria vida, longe da casa do meu pai, mas por onde eu ia havia sempre um ipê por perto.

Lembro do dia em que procurava um terreno para comprar. Vimos muitos e não havíamos decidido qual escolher, mas num deles havia um ipê amarelo, com flores tímidas. Escolhemos esse! Com o passar dos anos ele floriu exuberante, por poucos dias, mas o suficiente para reviver muitas lembranças.

Então mudamos de cidade e procuramos um novo lugar para morar... Muitas andanças e de repente uma rua torneada de ipês, amarelos! Passamos um ano morando ali. Novamente precisávamos mudar, às pressas porque o tempo estava curto, escolhemos uma casa um pouco incertos. Então uns dias depois da correria da mudança pude andar vagarosamente pela rua e contemplar a paisagem com mais calma. Percebi árvores altivas em toda a estrada, mas não havia percebido a coincidência até uma delicada flor cair à minha frente, como a me chamar a atenção. Sim, era uma flor de ipê, uma flor rosa, tão linda e majestosa, que me fez ter certeza que estava no lugar certo.

Meu pai ainda mora no mesmo lugar e na primavera recebo fotos dos pés de ipês floridos, alguns amarelos, outros roxos, tão altos que nem parece que demoraram tanto a crescer. A árvore antiga ainda vive lá, enfrenta os anos com coragem e beleza. A vida é tão corrida que poucas vezes consigo estar lá para contemplar tanta beleza de perto, mas com certeza enquanto os ipês florirem um pedaço de mim estará por lá, relembrando com carinho e gratidão as tardes de sol que pude descansar sob sua sombra.

Se algum dia, por qualquer motivo, eu me sentir perdida, uma voz lá no fundo vai me dizer: siga os ipês!

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